Na Copa do Mundo de 1950 o Rio Grande do Sul foi representado por dois jogadores do Sport Clube Internacional - Nena, zagueiro, e Adãozinho, atacante. Nenhum deles foi titular no time de Flávio Costa, assim como não o foi Tesourinha - craque cortado da disputa por causa de uma lesão no menisco, quando jogava pelo Vasco da Gama, do Rio. Nena - nascido em Porto Alegre - morreu aos 87 anos, tendo, junto com Adãozinho, participado do Rolo Compressor colorado de 1940 a 45. Nesta reprodução do Correio do Povo noticia-se a convocação dos dois jogadores.
Blog histórico voltado ao futebol gaúcho do passado. Clubes, atletas, jogos, estatísticas e curiosidades sobre o "esporte bretão" no Rio Grande do Sul e no Brasil.Fundado em 19 de julho de 2018.Email: vitorminas1@gmail.com
Total de visualizações de página
Mostrando postagens com marcador história do futebol gaúcho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador história do futebol gaúcho. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 30 de julho de 2018
Nena e Adãozinho no time convocado para a Copa do Mundo de 1950 no Brasil.
sábado, 21 de julho de 2018
Força e Luz, outro clube que desapareceu do cenário esportivo de Porto Alegre
Um dos pequenos grandes clubes da capital, o Força e Luz é outra agremiação esportiva que não mais existe. Formado, em sua origem, por funcionários da Carris - empresa pública de bondes - o Força e Luz chegou a ter o melhor estádio de Porto Alegre - localizado onde, dizem, será mais um hipermercado Bourbon, entre a Ipiranga e a Protásio Alves, nas proximidades do quartel dos Bombeiros. O "estádio" da Timbaúva - esse era o nome - sediou grandes jogos, embora fosse uma modestíssima quadra de esportes, como eram todos os centros esportivos da primeira metade do século 20 em Porto Alegre. Mas o "ferrinho" tem suas glórias e sua história, como se vê nesta matéria do Correio do Povo de 1935.
sexta-feira, 20 de julho de 2018
Nena e Adãozinho, do Inter, no selecionado brasileiro da Copa de 1950
Na primeira Copa do Mundo disputada no Brasil, a de 1950, dois jogadores gaúchos integraram o selecionado nacional que foi vice-campeão mundial: Nena e Adãozinho, ambos do Internacional, não foram titulares. Adãozinho, atacante, integrante do famoso Rolo Compressor do Inter, faleceu aos 66 anos, no estado de São Paulo. Depois da Copa, transferiu-se para o Flamengo, onde ficou até 1953. Nena, ou Olavo |Rodrigues Barbosa, zagueiro, faleceu em 2010, com 87 anos. Os dois nasceram em Porto Alegre. Nena fez história também na Portuguesa, de São Paulo.
![]() |
| Nena, do Rolo Compressor, morreu em Goiânia. |
Campeão de 1976, Inter teve apenas três derrotas em um campeonato com 54 equipes
O Sport Clube Internacional sagrou-se bicampeão brasileiro de futebol em 1976, com um timaço que marcou época, comandado pelo paulista Rubens Minelli. Com 19 vitórias, alguns empates e apenas três derrotas, o colorado teve o goleador da competição, Dario, o "Dadá Maravilha", e o melhor jogador, Figueroa. A final foi contra o Corinthias, em um jogo só, no Beira-Rio Lotado, com placar de 2 a 0 para o Inter.
Por capricho do regime militar, que queria agradar aos Estados, o certame teve 54 equipes participantes, algumas tão inexpressivas como o Confiança, de Sergipe, e o Uberaba, de Minas Gerais. O jogo da decisão final aconteceu a 12 de dezembro e sobre ele escreveu o jornalista Mino Carta, então no Jornal da Tarde e editor da revista Quatro Rodas, ambas de São Paulo. O título era "Se eu fosse marciano não estaria entendendo nada", reproduzido pelo Correio do Povo
1953, um ano de ouro para o futebol gaúcho
1953 foi um ano de ouro para o futebol gaúcho, brasileiro e
sul-americano. Ou, como escreveu Cid Pinheiro Cabral na Revista do Globo de 17
de outubro de 53, “foi o primeiro grande
ano para o futebol profissional de Porto Alegre”. Cabral, na reportagem
intitulada “Futebol a Portas Fechadas”,
comemorava: “Neste ano atinge o futebol
profissional de Porto Alegre uma prosperidade jamais sonhada”. Em seguida,
contudo, observou: “Infelizmente, a
popularidade alcançada está muito além da capacidade dos nossos estádios”.
O título da matéria “Futebol
a Portas Fechadas” era uma referência ao fato de que, pela primeira vez na
história futebolística da capital rio-grandense, parte dos torcedores que havia
comparecido aos estádios para assistir aos jogos não conseguira entrar, por
absoluto esgotamento da capacidade de acomodação nos diminutos e acanhados
centros esportivos de então. E prosseguia o cronista: “Antigamente, lá de vez em quando, fechavam os portões em Porto Alegre
antes das 14 horas. Mas isso só acontecia nos clássicos transcendentais, como
Grêmio X Internacional, realizados em estádios que mal comportavam 10 mil
pessoas. Em 1953, não. Em 1953, por ocasião do centésimo trinta Grêmio X
Internacional, os portões do estádio dos Eucaliptos, com 22.500 expectadores,
fecharam-se na cara de uns 2 mil a mais. E pela primeira vez isso aconteceu
também em outros jogos.” Cid destacava o fato de a disputa Internacional versus
Nacional (o da Chácara das Camélias) ter recebido cerca de 12 mil pessoas “em um estádio longínquo e sem acomodações,
e ficaram na rua 2 mil retardatários”. O fenômeno se repetiu em outra
partida – Internacional versus Força e Luz, o jogo do líder invicto contra o
último colocado. Também a partida entre Renner e Internacional teve lotação
esgotada.
Segundo o jornalista, “chegou,
portanto, a hora de Porto Alegre – a hora do futebol a portas fechadas. Por
paradoxal que pareça, futebol a portas fechadas quer dizer super popularidade.
E super popularidade, em linguagem profissionalista, é um estado de bem
aventurança.”
O fato do Grêmio estar quase concluindo as obras do Olímpico
chegava em excelente hora, festejava o cronista: “A sorte de Porto Alegre é que o estádio do Grêmio Porto-alegrense,
que abrigará, concluída a primeira parte do projeto, umas 35 mil pessoas, está
andando a passos de gigante. A sorte é que o Internacional, cujo estádio na
situação atual, apanha no máximo 23 mil pessoas, promete para breve uma nova
forçada, no sentido de concluir o seu pavilhão central, o que ampliará em 12
mil a sua capacidade.”
É importante salientar que o futebol no Rio Grande do Sul, em
1953, tinha apenas meio século anos de existência esportiva e que só haviam
sido realizadas quatro copas do mundo. Em todo o mundo, aliás, pela primeira
vez se descobrira que ele, à exceção de alguns países, era agora o esporte mais
popular de todos, superando o boxe, o remo e até o turfe.
Logo na abertura da sua matéria, Cid Pinheiro Cabral diz:
“Positivamente, a loucura do futebol chega ao auge”, lembrando que, durante a
construção do Maracanã, muitos dos seus idealizadores estimavam que o hoje
Maraca só lotaria dali a muitos anos, o mesmo acontecendo com o Pacaembu, este com
capacidade para 80 mil pessoas. E no entanto os dois já tinham lotado seus
jogos muitas vezes nos últimos anos.
O fenômeno não era brasileiro e sim sul-americano, apontava o
jornalista: “Eis que agora começa o
problema a afligir também os mentores do futebol uruguaio, argentino e chileno.
O Estádio Municipal de Santiago, remodelado em 1945 para o Campeonato
Sul-Americano (atual Copa América), não corresponde mais ao interesse que está
despertando, no Chile, o mais popular dos esportes.”
E prosseguia em sua matéria na Revista do Globo daquele ano
de 53: “A Argentina tem dois grandes
estádios recentemente construídos – o do Racing e o do Huracan. Mas ainda o do
River Plante conserva a primazia. É o mais amplo mas começa a tornar-se
pequeno. Mas também o velho estádio Centenário, inaugurado em Montevidéu por
volta de 1930 sem estar concluído, torna-se objeto de atenção dos dirigentes do
futebol uruguaio. Já não comporta mais o interesse que certas temporadas
internacionais começam a despertar e por isso vai ser ampliado em mais 30 mil
lugares.”
Fechando sua matéria “Futebol
a Portas Fechadas”, Cid Pinheiro Cabral ironizava, um tanto acidamente: “Ao depararmos com esse espetáculo – que é
continental – da luta da popularidade do futebol contra a relativa exiguidade
dos estádios, lembramo-nos daqueles apressados e mal inspirados profetas que,
por volta de 1933-34, preconizavam o fim do futebol no Brasil por haver
cometido o imperdoável pecado de profissionalizar-se. Paz à alma dos que já
morreram.”
quinta-feira, 19 de julho de 2018
Mino Carta e o Inter de 1976: se fosse marciano, não estaria entendendo nada...
Em 12 de dezembro de 1976, quando o Internacional conquistou
o bicampeonato brasileiro e, pela segunda vez, o respeito e a admiração de todo
o Brasil ao vencer o Corinthians por 2 a 0 no Beira-Rio, o jornalista Mino
Carta – então um dos mais admirados homens de imprensa do País, fundador do
Jornal da Tarde, da revista Quatro Rodas, ex-editor da Veja e já então comandando
a recém fundada Istoé – escreveu para a Folha de São Paulo uma crônica daquela
final que ele julgava “histórica”. Mino Carta pouco entendia de futebol e não
costumava se aventurar nesse campo. Mas, depois de assistir à partida entre
gaúchos e paulistas, ele garantiu “Se
fosse marciano, não estaria entendendo nada” – este o título do seu
trabalho, que merece ser transcrito tantos anos depois. O texto é quase
literário, faz referências veladas à situação política da época e compara o
futebol do Inter com o moderno futebol europeu.
Assim o jornalista descreveu o que viu aquela tarde no
Gigante da Beira-Rio: “O calor é tropical
mas o panorama que cerca o Beira-Rio, apinhado de elevações bem penteadas,
poderia ser europeu. Falta ao cenário deste jogo um toque luxuriante, uma
reminiscência, ao menos, de mato desvairado, como talvez conviesse ao supremo
conflito das esperanças nacionais. Alguém, leitor de bons livros e frequentador
do raciocínio límpido, me dizia ainda ontem que o corintianismo, esse singular
e forte sentimento que tomou conta da nação, é a forma mais eficiente de
solidariedade hoje no Brasil. Diga-se que se trata de alta autoridade da
política situacionista. Pois a oportunidade de pôr à prova essa solidariedade,
o momento em que ela é confrontada, talvez merecesse um palco tropical. Em
compensação, há muito de surrealismo no clima do estádio e nas bombas e nas
bandeiras das torcidas, frenéticas quando a esperança entra em campo. Um
marciano ficaria pasmo.”
E prossegue o jornalista:
“Mas a torcida colorada não é a do Fluminense, nem Porto Alegre é como o Rio. O
Beira-Rio é diferente do Maracanã. O estádio pulsa com os gritos dos homens que
são “machos” – e pronuncie a palavra com o sotaque dos pampas. O Corinthians
hoje exibe-se numa ribalta muito pouco corintiana.
“E o Corinthians começa
tímido, o Inter agride a bola com fúria vermelha. Os colorados estão em todas
as divididas. Aos 10 minutos o Corinthians praticamente ainda não saiu do seu
campo. Parece um encontro entre o mais recente futebol europeu e o mais
tradicional sul-americano. Falcão domina o centro do campo e sua passada lembra
Beckenbauer. A defesa corintiana está confusa, a bola filtra nela como um peixe
numa rede lacerada. Falcão está em todos os lugares, finta Vaguinho no bico da
área, enfia a bola entre as pernas de Romeu e sai com os cabelos ao vento.
Em seguida Mino Carta descreve o primeiro gol do Inter:
“E quase aos 29 minutos
vem, inexoravelmente, o gol do Inter. Nasce dos pés de Valdomiro que já foram
infelizes no mundial de 74. Mas o seu chute é sempre potente. E uma falta de Zé
Maria no onipresente Falcão, que amaciou a sua amada no peito, na boca da área,
Valdomiro bate, o tiro ricocheteia na barreira, sobe a bola maligna para a
cabeça de Dario e é gol. Onde estão os orixás? Estão chorando, suponho. Mas os
deuses da fúria gaúcha sorriem. Voltam a sorrir oito
minutos depois, quando o Corinthians perde um gol que parecia decretado. A bola
passa por vários pés corintianos, mas ninguém chuta enquanto Manga já está no
chão, batido. Os deuses gaúchos estão segurando estas chuteiras lerdas. A
torcida corintiana de vez em quando ergue-se e agita as suas bandeiras. Mas
esses instantes são cada vez mais raros, nesse primeiro tempo. Nele ficaram
evidentes, para mim, duas coisas. Primeira, que Russo é um gladiador tropical,
um homem cheio de fé e uma musculatura disforme, talvez porque feita de arroz e
feijão. Segunda, porque Falcão não é Rivelino, Falcão é “macho”.
Agora Mino carta descreve o segundo tempo da partida: “Mas no segundo tempo a torcida corintiana e
seu time sabem que agora é tudo ou nada. Será que os orixás sabem? Os deuses
dos pampas sabem de certo quando desviam de leve a falta cobrada por Romeu e
fazem com que a bola se choque com o travessão para que a desdita corintiana
seja mais gorda. Em campo há muitas faltas, nas arquibancadas muitos gritos e
gestos de raiva e tensão. E numa dessas faltas, na entrada da área corintiana,
aos 12 minutos Valdomiro cobra por sobre a barreira e os deuses colorados
reaparecem e em tempo abaixam, sempre de leve, a trajetória do chute, e fazem
com que bata na parte inferior do travessão, e quique depois dentro do gol,
poucos centímetros além da chamada linha fatal. Centímetros? Milímetros, para a
desdita alvinegra continuar engordando. Os corintianos protestam, cercam o
juiz, e um bolo de gente forma-se numa das extremidades da divisória do campo,
e lá se discute, aos berros, aos empurrões, se a bola entrou ou não. Entrou,
entrou, a sentença é irremediável, e o bolo se desfaz e o jogo recomeça com
dois a zero no marcador.
“Ah, se eu fosse marciano
me perguntaria se tanta energia não poderia ser canalizada para outras
empreitadas, mais proveitosas do que esta, capaz de criar raivas e alegrias tão
grandes, no peito de cada um e de todos, e tão inúteis. E voa uma garrafa em
campo e fogos são dirigidos contra o gramado que já não brilha ao sol. No ocaso
as garrafas chovem e o jogo para de novo, o campo é invadido por dirigentes,
repórteres, alguns assistentes dispostos a pular o alambrado, policiais e seus
cachorros. Ah, se eu fosse um marciano não estaria entendendo coisa alguma.
“O vento não agita mais
as bandeiras corintianas, talvez elas estejam molhadas pelo pranto dos que
vieram até o Beira-Rio e de todos aqueles milhões que neste momento estão
diante do vídeo ou com os ouvidos colados em um rádio de pilha, alimentando a
mesma fé rigorosamente desperdiçada. Eles talvez estejam anotando um nome, o do
bandeirinha que confirmou o segundo gol colorado. Que os fados se compadeçam
dele.
“O jogo recomeça mas a
sorte está selada. A pressão corintiana serve apenas para mostrar a força dos
deuses gaúchos e as habilidades de um velho profissional da bola, o goleiro
Manga. O jogo acabou, a solidariedade desfeita se recompõe em torno daqueles
que ainda saberão esperar por uma vitória. Não tenho dúvidas sobre o caráter
histórico deste jogo. É mais uma derrota de uma antiga e nebulosa esperança.
Mas valeria a pena ganhar.”
Santos Vidarte, o grande mestre da fotografia
Era uma quinta-feira e Santos Vidarte preparava-se para
começar a trabalhar na sua função de chefe do departamento fotográfico do
Palácio Piratini, atividade que dividia com o Correio do Povo, onde mantinha-se
como supervisor. Também lecionava na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a Fabico. Em tratamento médico
havia alguns anos, o veterano fotógrafo insistia em não parar quando, sem
nenhum aviso, como um clique final, foi traído pelo próprio coração. Atendido sem
sucesso por dois médicos do Palácio, faleceu de fulminante ataque cardíaco, dando
fim a uma carreira de quase cinquenta anos que teve muitos momentos gloriosos e
muitas, muitas histórias.
Percorrendo milhares de quilômetros de carro, avião, barco ou
em lombo de burro, de início com uma pesada câmera americana Speed Graphic e
depois com a velha Rolleiflex alemã, Santos Vidarte ganhou notoriedade ao
fotografar o afundamento do encouraçado nazista Graf Spee, no porto de
Montevidéu. Era a célebre Batalha do Prata, em dezembro de 1939, início da
Segunda Grande Guerra. Na Copa do Mundo de 1950, realizada no Brasil, foi
companheiro de outro grande mestre, este do jornalismo esportivo: Cid Pinheiro
Cabral.
Naturalizado brasileiro, casado com dona Léa Bernardi
Vidarte, tinha uma filha, Maria Clara, e outras grandes paixões além da
fotografia e da família: a pesca, na plataforma de Cidreira, e a culinária na
sua casa da praia. Em uma página no Correio do Povo dominical, inteiramente
dedicada ao amigo que acabara de falecer, o jornalista Flávio Alcaraz Gomes
escreveu, sob o título A Última Jornada,
reportando-se à derradeira grande cobertura jornalística de Vidarte, feita pelos
dois três anos antes, na rodovia Transamazônica, empreendimento mal sucedido do
Milagre Brasileiro:
“ – Meu Pai e o Arlindo Pasqualini garantiam sempre: - Para
companheiro de viagem, ninguém como o Santos.
Diz Alcaraz: “Em tudo o
Santos era uma mistura de jovem repórter e de irmão mais velho. Mal clareava o
dia e já estava ele de pé, ensinando os cozinheiros do acampamento a nos servir
um café igual ao dos grandes hotéis. Ao jantar, ele continuava a nos orgulhar,
me orgulhava menos pelos banquetes que preparava do que por sua conversa boa de
homem bom.”
No mesmo domingo, em sua coluna Ribalta das Ruas, o
jornalista Antonio Carlos Ribeiro, já falecido, fala do “Tio Santos”, termo
carinhoso para descrever um sentimento de carinho e gratidão para com o grande
mestre: “Há sujeitos que marcam sua
passagem, e o velho e querido tio Santos foi um deles. Ensinou-nos a nadar, a
pescar e, principalmente a fazer as coisas “bem-feitamente”. Pouca gente terá
sido tão fraternalmente amada. Ele exercia sobre nós uma liderança natural e
tranquila e sabia como poucos tornar inesquecível uma foto, fosse do
afundamento do Graf Spee, fosse de uma nuvem de gafanhotos ou de uma criança
brincando na areia. Fez isso por quase 50 anos, com rara vitalidade e infinito
amor”.
Sepultado no cemitério ecumênico João 23, o mestre Santos
Vidarte teve, afinal, as honras que mereceu com sobras. Um público numeroso foi
ao cemitério prestar sua homenagem ao grande ícone da reportagem fotográfica.
Estavam lá o governador Sinval Guazeli, o seu vice Amaral de Souza, o
ex-prefeito e duas vezes governador do Rio Grande do Sul Ildo Meneghetti, o
cardeal-arcebispo de Porto Alegre, Dom Vicente Scherer, a direção da Companhia
Jornalística Caldas Júnior, deputados, vereadores, professores, colegas
jornalistas e fotógrafos e muitos admiradores. O mito do futebol gaúcho,
Tesourinha, que Santos Vidarte tantas vezes fotografara, era um deles. Naquele
dia, de luto, a Câmara Municipal de Porto Alegre suspendeu sua sessão. Entre os
convites para o enterro publicado nos jornais daquela sexta estava o do Clube
de Pesca Anzol de Ouro, do qual fora presidente e sócio-fundador. Assim era
Santos Vidarte, homem simples, leal e talentoso.
Cardeal, o craque que jogava sem um pulmão
Cardeal foi um dos maiores
jogadores do futebol gaúcho – isso na época romântica, em que o
profissionalismo mal iniciava no esporte brasileiro. Nascido em Santa Vitória
do Palmar a 7 de novembro de 1912, Sezefredo Ernesto da Costa era atacante e
ganhou o apelido de Cardeal pelo fato de jogar com um gorro vermelho. Cardeal –
assim como o grande Lara, do Grêmio – morreu de tuberculose, em Montevidéu, em
4 de agosto de 1949, com apenas 36 anos de idade, depois de ter passado por
muitos clubes, pequenos e grandes – o Nono Regimento, clube pelotense de origem
militar de Pelotas, rebatizado de Farroupilha em 1941, o Brasil de Pelotas, o São Paulo de
Rio Grande, o Fluminense do Rio e Nacional de Montevidéu, entre outros.
Naqueles tempos não havia
campeonato brasileiro de clubes, até pelas dificuldades de deslocamento em um
Brasil primitivo e sem rápidos meios de transporte. Mas Cardeal, vice campeão
brasileiro de 1936 pelo selecionado gaúcho (em uma decisão contra os paulistas
em que, dizem os gaúchos, o árbitro deu uma mão ao pessoal da terra da garoa),
foi convocado pelo técnico Ademar Pimenta para disputar o sul-americano de
1936, o que chamou a atenção dos uruguaios do Nacional, que o contrataram no
ano seguinte. Em 1939 foi para o Fluminense, retornando para o Regimento de
Pelotas menos de dois anos depois, clube pelo qual ganhou o histórico título estadual de
1935, o ano festivo das comemorações do centenário farroupilha. A decisão foi
contra o Grêmio, em Porto Alegre, e Cardeal fez dois gols na vitória de 2 a 1
contra a equipe tricolor.
Segundo a lenda, Cardeal só tinha
um pulmão, já que o outro havia sido extraído quando se descobriu tuberculoso.
Mesmo assim ele jogava e se impunha na grande área – era o que se chama hoje de
“matador”. Parou de jogar em 1943 e faleceu em Montevidéu, com toda assistência
médica que lhe ofereceu o Nacional, onde também brilhou.
A fonte básica desta pesquisa inicial é o buscador do Google. A parte
abaixo é pesquisa nossa.
Em janeiro de 1976, em uma das
suas crônicas dominicais na coluna Esporte Especial do Correio do Povo, Cid
Pinheiro Cabral contou uma pitoresca historieta envolvendo esse craque do
passado, que reproduzimos aqui na íntegra e que se chamava “Dali, Cardeal não
errava...” .
“Conhecido é o episódio do Carruíra,
em Rio Grande, na década de 30. Atirando um pênalti contra o Botafogo, raspando
a trave, mas pelo lado de fora, teve-o transformado em gol, sob a desculpa de
que “Carruíra nunca errou nem errava um bola daquelas...”
Agora recebo do advogado Afif Jorge Simões Filho, de São Sepé, o relato
de outro episódio envolvendo Cardeal – que aí vai como nos chegou.
“ – Há poucos dias esteve aqui em São Sepé, fazendo-nos uma visita, o
distinto advogado de Bagé, Dr. Edgar Pinto, torcedor doente e alto prócer do
Guarani. Contou-nos fatos interessantes do futebol bajeense, desde 1939,
quando, guri, começou a frequentar os estádios da sua terra.
Esta aconteceu em Bagé, segundo relata o dr. Edgar, no início da década
de 40 (1941 ou 42, por aí), quando o Farroupilha de Pelotas foi ali disputar um
amistoso com o Guarani, levando como grande atração o inesquecível Cardeal já
em fim de carreira, com um pulmão só e capacidade
para jogar apenas um tempo, a pau e corda. Apitava a partida o ex-craque do
próprio Guarani, conhecido por Gancho.
Ao terminar o primeiro tempo, ganhava o Guarani de 1 a 0. Faltando uns
30 minutos para o final, o Farroupilha apelou para o seu grande trunfo: colocou
o Cardeal em campo para equilibrar (ou desiquilibrar) a partida. O Cardeal (e o
sr. o viu jogar muitas vezes, certamente) dava a impressão de ser etéreo,
imaterial, tal a facilidade e leveza com que passava pela zaga. Em fim de
carreira, não tinha sequer força para grandes chutes, mas fazia o seu carnaval
com a bola nos pés. Lá pelas tantas, pega a bola e derruba a dribles toda a
defesa do Guarani, enquanto o árbitro Gancho, de apito na boca, segue
atentamente o lance. Quando o Cardeal ficou na cara do goleiro, ouviu um
tremendo apito e parou a jogada, pisando em cima da bola. Voltou para
interpelar o Gancho, inconformado:
- Pomba, gancho, no hora em que eu ia fazer o gol, tu apitas.
- Olha, Cardeal, foi uma coisa estranha que aconteceu. Eu fiquei tão
emocionado com a tua jogada que apitei sem querer. Foi um apito bobo que saiu
da boca sem qualquer motivo. Mas podes ficar tranquilo: o gol não saiu... mas
valeu!
E apontou o centro de campo, para nova saída. Os jogadores e a
diretoria do Guarani cercaram o juiz, protestando aos gritos:
- É um absurdo! Onde é que estamos!
O Gancho argumentava:
- O gol estava quase feito, era só chutar.
Mas o pessoal do Guarani não se conformou:
- É um absurdo! O Cardeal podia chutar fora ou por cima, o goleiro
podia defender...
E o Gancho, imperturbável:
- Vocês não conhecem o Cardeal... Joguei anos ao lado dele e contra
ele, e gol como aquele ele nunca perdeu. Não haveria de ser hoje que iria
perder...
E o jogo terminou empatado, apesar de todos os protestos do Guarani.
Assinar:
Postagens (Atom)


