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sexta-feira, 20 de julho de 2018


Tesourinha, o sorriso largo no craque fabuloso

Tesourinha, em matéria da Revista do Globo de 1946, escrita por Cid Pinheiro Cabral.


17 de junho de 1979, uma noite de sábado para domingo, é uma data triste para o futebol gaúcho e brasileiro. Nesse dia, em Porto Alegre, falecia Osmar Fortes Barcelos, mais conhecido por Tesourinha. Um dos maiores pontas-direitas do futebol brasileiro encerrava a vida com apenas 57 anos, vítima de um câncer no estômago, deixando, atrás de si, uma lenda futebolística e um modelo a ser seguido. Mito do Internacional, carro-chefe do famoso Rolo Compressor que foi hexacampeão gaúcho, de 1940 a 1945, Tesourinha ganhou esse apelido pelo fato de seu pai integrar um famoso bloco carnavalesco da capital, o Tesouras, formado em sua maioria por negros, e que marcou época nos anos 20, 30 e 40. Ele foi o primeiro jogador negro da história do Grêmio Porto-alegrense, onde também jogou, dando fim a um período de discriminação racial no hoje popular e democrático clube gaúcho.
Tesourinha foi campeão sul-americano pela Seleção Brasileira nos anos quarenta, formando ao lado de Heleno de Freitas, Zizinho, Jair e Ademir, e só não participou da malograda Copa do Mundo de 1950 no Brasil, aquela do Maracanaço, por ter estourado os meniscos quando jogava pelo Vasco, clube para o qual se transferiu no início daquele ano, naquela que foi considerada a maior transação do futebol brasileiro da época. Muitos consideram que sua ausência foi uma das causas da perda do título para o Uruguai.
Nascido em 3 de outubro de 1921, de família pobre, no bairro pobre da Ilhota, a primeira grande favela de Porto Alegre, era filho de um motorista e de uma dona de casa. Seu pai faleceu quando ele tinha apenas 12 anos. Começou a jogar futebol em criança, em um dos times da famosa Liga da Canela Preta, uma associação de jogadores de cor que se contrapunha ao racismo imperante no esporte de então. Em 1940 Tesourinha já estava no Internacional de Porto Alegre, onde ficaria por dez anos, formando o temível ataque colorado com Vilalba, Russinho, Ruy e Carlitos. Em 1946, ao final do campeonato sul-americano, atual Copa América, vencido pelo Brasil, Tesourinha foi escolhido pela crítica “o maior ponteiro da América”. Mais tarde ganhou o título de “Craque Melhoral”, distinção concedido por uma empresa de medicamentos ao melhor jogador brasileiro do ano,
Tesourinha foi comprado pelo Vasco no final de 1949, e o Vasco era o mais caro e vitorioso time da época, a base da seleção brasileira. Porém o problema no joelho fez com que pouco durasse em São Januário. Em 1952, já com seus trinta anos, foi contratado pelo Grêmio, Grêmio que no ano seguinte completaria 50 anos de glórias. O garoto pobre da Ilhota voltava à terrinha.
Mas Tesourinha era colorado de coração e foi no Inter onde jogou o fino. Em 1969, quando da inauguração do Gigante da Beira-Rio, foi homenageado pela nação colorada. Com lágrimas nos olhos, retirou, como merecido troféu, as redes das goleiras do velho Estádio dos Eucaliptos, palco das suas grandes atuações pelo Internacional. Defensor da classe esportiva e do futebol varzeano, onde se formou, Osmar Fortes Barcelos foi laureado postumamente com a Copa Tesourinha de Futebol Amador da Federação Gaúcha de Futebol e com um centro esportivo que leva seu nome. Ele sempre dizia, com orgulho: “Vim da várzea, me torneio ídolo e não posso negar meu apoio visando melhorar a estrutura desse futebol varzeano, de onde saem os grandes craques. É lá onde tudo começa”
Logo após a sua morte, em uma crônica no velho Correio do Povo, o jornalista e colorado Valter Galvani fala da honra de ter conhecido Tesourinha, o craque fabuloso, e Osmar Fortes Barcelos, o homem afável de sorriso largo. Menino vindo do interior, lembrando da primeira vez que o viu jogar, Galvani escreveu a 24 de junho de 1979 a crônica “Tesoura, um Certo Sorriso”: “Eu diria que o vi em campo, naquela longínqua tarde de 1944, com o seu largo sorriso. Tesourinha foi um herói a seu modo, um herói modesto, simples e calmo, capaz de levar as plateias até o delírio. Nunca esqueci suas jogadas, mas jamais esquecerei o seu sorriso de bondade.”

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Cardeal, o craque que jogava sem um pulmão



Cardeal, não jogou na dupla Grenal.


Fonte principal: Google - Internet básica
Cardeal foi um dos maiores jogadores do futebol gaúcho – isso na época romântica, em que o profissionalismo mal iniciava no esporte brasileiro. Nascido em Santa Vitória do Palmar a 7 de novembro de 1912, Sezefredo Ernesto da Costa era atacante e ganhou o apelido de Cardeal pelo fato de jogar com um gorro vermelho. Cardeal – assim como o grande Lara, do Grêmio – morreu de tuberculose, em Montevidéu, em 4 de agosto de 1949, com apenas 36 anos de idade, depois de ter passado por muitos clubes, pequenos e grandes – o Nono Regimento, clube pelotense de origem militar de Pelotas, rebatizado de Farroupilha  em 1941, o Brasil de Pelotas, o São Paulo de Rio Grande, o Fluminense do Rio e Nacional de Montevidéu, entre outros.
Naqueles tempos não havia campeonato brasileiro de clubes, até pelas dificuldades de deslocamento em um Brasil primitivo e sem rápidos meios de transporte. Mas Cardeal, vice campeão brasileiro de 1936 pelo selecionado gaúcho (em uma decisão contra os paulistas em que, dizem os gaúchos, o árbitro deu uma mão ao pessoal da terra da garoa), foi convocado pelo técnico Ademar Pimenta para disputar o sul-americano de 1936, o que chamou a atenção dos uruguaios do Nacional, que o contrataram no ano seguinte. Em 1939 foi para o Fluminense, retornando para o Regimento de Pelotas menos de dois anos depois, clube pelo   qual ganhou o histórico título estadual de 1935, o ano festivo das comemorações do centenário farroupilha. A decisão foi contra o Grêmio, em Porto Alegre, e Cardeal fez dois gols na vitória de 2 a 1 contra a equipe tricolor.
Segundo a lenda, Cardeal só tinha um pulmão, já que o outro havia sido extraído quando se descobriu tuberculoso. Mesmo assim ele jogava e se impunha na grande área – era o que se chama hoje de “matador”. Parou de jogar em 1943 e faleceu em Montevidéu, com toda assistência médica que lhe ofereceu o Nacional, onde também brilhou.
A fonte básica desta pesquisa inicial é o buscador do Google. A parte abaixo é pesquisa nossa.
Em janeiro de 1976, em uma das suas crônicas dominicais na coluna Esporte Especial do Correio do Povo, Cid Pinheiro Cabral contou uma pitoresca historieta envolvendo esse craque do passado, que reproduzimos aqui na íntegra e que se chamava “Dali, Cardeal não errava...” .
“Conhecido é o episódio do Carruíra, em Rio Grande, na década de 30. Atirando um pênalti contra o Botafogo, raspando a trave, mas pelo lado de fora, teve-o transformado em gol, sob a desculpa de que “Carruíra nunca errou nem errava um bola daquelas...”
Agora recebo do advogado Afif Jorge Simões Filho, de São Sepé, o relato de outro episódio envolvendo Cardeal – que aí vai como nos chegou.
“ – Há poucos dias esteve aqui em São Sepé, fazendo-nos uma visita, o distinto advogado de Bagé, Dr. Edgar Pinto, torcedor doente e alto prócer do Guarani. Contou-nos fatos interessantes do futebol bajeense, desde 1939, quando, guri, começou a frequentar os estádios da sua terra.
Esta aconteceu em Bagé, segundo relata o dr. Edgar, no início da década de 40 (1941 ou 42, por aí), quando o Farroupilha de Pelotas foi ali disputar um amistoso com o Guarani, levando como grande atração o inesquecível Cardeal já em fim de carreira, com um pulmão só e capacidade para jogar apenas um tempo, a pau e corda. Apitava a partida o ex-craque do próprio Guarani, conhecido por Gancho.
Ao terminar o primeiro tempo, ganhava o Guarani de 1 a 0. Faltando uns 30 minutos para o final, o Farroupilha apelou para o seu grande trunfo: colocou o Cardeal em campo para equilibrar (ou desiquilibrar) a partida. O Cardeal (e o sr. o viu jogar muitas vezes, certamente) dava a impressão de ser etéreo, imaterial, tal a facilidade e leveza com que passava pela zaga. Em fim de carreira, não tinha sequer força para grandes chutes, mas fazia o seu carnaval com a bola nos pés. Lá pelas tantas, pega a bola e derruba a dribles toda a defesa do Guarani, enquanto o árbitro Gancho, de apito na boca, segue atentamente o lance. Quando o Cardeal ficou na cara do goleiro, ouviu um tremendo apito e parou a jogada, pisando em cima da bola. Voltou para interpelar o Gancho, inconformado:
- Pomba, gancho, no hora em que eu ia fazer o gol, tu apitas.
- Olha, Cardeal, foi uma coisa estranha que aconteceu. Eu fiquei tão emocionado com a tua jogada que apitei sem querer. Foi um apito bobo que saiu da boca sem qualquer motivo. Mas podes ficar tranquilo: o gol não saiu... mas valeu!
E apontou o centro de campo, para nova saída. Os jogadores e a diretoria do Guarani cercaram o juiz, protestando aos gritos:
- É um absurdo! Onde é que estamos!
O Gancho argumentava:
- O gol estava quase feito, era só chutar.
Mas o pessoal do Guarani não se conformou:
- É um absurdo! O Cardeal podia chutar fora ou por cima, o goleiro podia defender...
E o Gancho, imperturbável:
- Vocês não conhecem o Cardeal... Joguei anos ao lado dele e contra ele, e gol como aquele ele nunca perdeu. Não haveria de ser hoje que iria perder...
E o jogo terminou empatado, apesar de todos os protestos do Guarani.